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Marcos Antonio Vasconcelos Rodrigues Pensar e Repe
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Entrevista com Laudo Natel- "Honra e glória do São Paulo"

Entrevista com Laudo Natel -"Honra e Glória do São Paulo"

 

Laudo Natel é um do homens que dedicaram grande parte de suas vidas a suas agremiações esportivas, prestando serviços de grande relevância. Esta entrevista foi realizada pela escritora Branca Granatic em janeiro de 1994, com Laudo Natel, e que ora é publicada neste Site.

 

Pergunta: Em alguns momentos de sua vida existiu a possibilidade de o senhor torcer para outro time?

 

Laudo Natel: Não. Desde que acompanho o futebol, eu sou são-paulino. E eu sou mais antigo que o São Paulo. Eu nasci em 1920 e o São Paulo foi fundado em 1931.Eu sou um homem do interior e fiz carreira como bancário . Vim para são Paulo no final de 1945 e uma das primeiras coisas que eu fiz foi me tornar sócio do São Paulo Futebol Clube.

 

Pergunta: A sua ligação foi primeiro com a sede social do clube ou com o time de futebol?

 

Laudo Natel: Eu acompanhava o futebol e acompanhava a vida do clube. Ocorre que o São Paulo, nesta ocasião, não era essa potência que é hoje. Era um clube que vivia em grandes dificuldades. E o presidente Cicero Pompeu de Toledo me levou para lá como dirigente, menos por ser são-paulino, mais por eu ser um homem de banco, para idealizar alguma coisa que pudesse tirara o São Paulo daquela dificuldade. E eu acabei ficando seis anos como diretor de finanças e quatorze anos como presidente, de modo que eu tenho uma trajetória de vinte anos como presidente.

 

Pergunta: Conte-nos sobre o estádio do Morumbi.

 

Laudo Natel: Eu tive o privilégio de lançar a pedra fundamental e de inaugurar este estádio.Eu fui dirigente de 52 a 72 e presidente de 58 a 72.Nesta ocasião eu já era governador do estado.Uma curiosidade:na época, esse sonho do estádio era uma loucura, porque o Morumbi não era nada. A primeira pedra que foi colocada no bairro foi exatamente a pedra fundamental do Estádio Cícero Pompeu de Toledo. Havia um loteamento, mas não havia nada, nem condução, nem água ou telefone.

 

 

Pergunta:Então podemos dizer que o estádio se tornou um polo que propiciou a urbanização das regiões adjacentes?

 

Laudo Natel: Sem dúvida alguma. A empresa que era proprietária do terreno teve o alcance de enxergar a possibilidade de o estádio desenvolver a região.Eu considero este estádio um milagre. Fui para o são Paulo para evitar que ele fechasse as portas . E um clubinho endividado consegue inaugurar o maior estádio particular do mundo e entregá-lo sem um cruzeiro de dívida.Ele foi feito com tenacidade, vontade de realizar, acreditando nessa iniciativa e, ao mesmo tempo, vendendo ideias. Agora, isso não foi uma tarefa fácil. Nós trabalhamos dezoito anos até a inauguração definitiva, em 1970. O são-paulino entendia que eu tinha que realizar uma obra, uma estrutura, uma base para que o São Paulo pudesse, no futuro, apresentar resultados favoráveis.

 

 

Pergunta: Quais os títulos conquistados na sua gestão?

 

 

Laudo Natel: No meu caso particular, eu dei muita importância aos campeonatos de 70 e 71 pelo seguinte: durante todos esses anos da construção do estádio, o São Paulo sempre se portava bem, mas eu acredito que só uma vez chegou ao título. E eu sempre prometia à torcida:"Um dia vocês vão ter títulos.Deixa eu terminar o estádio". Em 1970, consegui inaugurar o estádio e, logo em seguida, ganhar um título:1970 e 1971.Ganhamos dois títulos seguidos. Aquilo foi uma satisfação que eu dei para a torcida.Então aquilo para mim foi de uma importância fundamental, porque representava o pagamento de uma promessa. Aquilo que eu dizia estava certo: primeiro vamos fazer o estádio, depois vamos ganhar os títulos.

 

Pergunta: Às vezes, associa-se o time São Paulo a uma determinada faixa da população economicamente privilegiada. Por que isso acontece?

 

 

Laudo Natel: Olha, eu entendi bem o sentido de sua pergunta. Eu diria que o São Paulo, no início, era considerado um time mais ou menos de elite. Mas está aí uma coisa interessante: Não era elite econômica; era uma elite, vamos dizer, intelectual. Porque normalmente o quadro dirigente e grande parte de sua torcida era constituído de médicos , de advogados, de professores. Então era uma elite intelectual, mas não necessariamente rica. Tanto que o São Paulo era um time pobre Ele encontrou todas as dificuldades. Mas o crescimento da cidade de São Paulo foi tão grande que as torcidas foram se nivelando. Eu não vejo diferença entre a torcida do Corinthians, do Palmeiras e do São Paulo. É o mesmo padrão.Você encontra torcedores de todos os níveis

 

Pergunta:Quais os elementos que compõem a estrutura de sustentação financeira do clube?

 

Laudo Natel: O clube tem os sócios que dão sustentação ao clube. Tem o estádio que, de certa forma, é um gerador também de rendas, porque quando há um jogo de futebol profissional, há sempre uma taxa destinada ao aluguel do estádio.Como o São Paulo tem um grande estádio, os grandes jogos são feitos no Morumbi. então a renda do Morumbi é hoje uma base de sustentação do próprio São Paulo. O clube também tem patrocinadores e televisão.

 

 

Pergunta: Qual o grau de interferência dos patrocinadores nas decisões do clube em relação ao time?

 

Laudo Natel: Com a evolução da publicidade é evidente que as grandes empresas têm interesse nos times de futebol. As empresas procuram associar a imagem do time à imagem de uma coisa vencedora. No São Paulo não há interferência das empresas na direção. No caso do São Paulo, nenhuma interferência.A empresa só lucra com a publicidade. O poder de decisão é apenas da diretoria.

 

Pergunta: Um clube conquista muitos títulos porque ele é bem gerido, inteligentemente administrado ou porque ele tem mais verba que outro?

 

 

Laudo Natel:Olha, eu diria que a capacidade supera um pouco o dinheiro. O dinheiro é necessário, mas a capacidade supera um pouco o dinheiro.O São Paulo tem tido uma felicidade muito grande na escolha de seus dirigentes. E uma coisa muito importante no São Paulo tem sido a continuidade administrativa. Não houve um único presidente que procurasse desmanchar o que o outro fez. Cada um deu continuidade como se fosse o mesmo programa , a mesma cabeça . Não houve um só presidente que não contasse com o apoio dos outros e que não desse continuidade ao trabalho do clube. Então, se o São Paulo chegou a esse ponto, em primeiro lugar, 70 ou 80% é o espírito que norteou a direção do São Paulo.E o restante, a base que entra o dinheiro, entra a estrutura, entra a torcida, entra tudo mais

 

 

Pergunta: Como o senhor definiria o torcedor fanático?

 

 

Laudo Natel:Bom, eu não sei. Hoje em dia o torcedor fanático tem sido este que faz distúrbios por aí. Mas não é. O torcedor fanático é aquele que vibra com o resultado do clube que acompanha.

 

Pergunta: Ouvi dizer que há uma frase que o senhor usa frequentemente em sua casa sobre o clube. Qual é ela?

 

Laudo Natel:A minha casa é uma autêntica democracia. Cada um tem o direito de torcer para o time que quiser, desde que seja o São Paulo.

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Pergunta: Quando o senhor vê pela televisão o estádio do Morumbi ou se eventualmente está lá em dia de jogo e uma multidão acorre ao local, o que é que o senhor sente?.

 

 

Laudo Natel: Eu sinto muito orgulho do Morumbi, porque foi uma obra de tenacidade. Eu confesso que envelheci muito pelas responsabilidades que eu tive que assumir, mas o São Paulo está hoje num plano de destaque, numa hegemonia do futebol.Foi pioneiro em muita coisa .O Morumbi não foi um prêmio para o São Paulo. Na minha opinião, foi um prêmio para a cidade de São Paulo.E alargou os horizontes do futebol profissional. foi muito duro, muito difícil . Talvez a empreitada mais difícil da minha vida. Mas há uma compensação muito grande: hoje quando eu passo e vejo o Morumbi,beu tenho uma sensação ...uma sensação de coisa realizada, de dever cumprido, de não ter desertado nos momentos difíceis.

 

Pergunta:O senhor considera que recebeu o justo reconhecimento por parte de seu clube?

 

Laudo Natel: O meu nome ficou muito associado ao nome do São Paulo. Eu deixei de ser dirigente do São Paulo em 72. Até hoje , quando o São Paulo ganha uma partida, eu sou cumprimentado na rua e quando perde, eu sou cobrado, como se eu fosse o pai. De certa forma, eu sou pai, porque eu recebi o título de Grande Patrono do São Paulo Futebol Clube.

 

 

Pergunta: O que o senhor gostaria de dizer aos jovens que lerão o seu depoimento nesta entrevista?

 

 

Lado Natel: Bom, primeiramente eu acho que a pessoa deve fazer o que gosta, porque quando não gosta, o trabalho é um fardo.Fazendo o que gosta, a coisa se torna leve. Se eu considerar a modéstia da minha origem, eu creio que percorri com relativo sucesso os caminhos da minha vida: eu fui presidente do meu clube, eu fui diretor da minha empresa e fui governador do meu estado.E se isso pode servir de exemplo para alguma coisa, é exatamente isso o que digo: a tenacidade, acreditar, fazer o que gosta e cultivar a verdade. Para realizar uma determinada coisa, às vezes a gente encontra grande tropeço, pedra no caminho, injustiça, incompreensão. Então tem que ter esta força interior para superar as dificuldades e perseverar: acreditar naquilo que faz. Quando a gente acredita no que está fazendo, parece que a metade da coisa já está realizada.

 

Texto transcrito por Marcos Antonio V.Rodrigues

Branca Granatic
Enviado por Marcos Antonio Vasconcelos Rodrigues em 08/06/2019
Alterado em 26/04/2026
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