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Segundo o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, “o foco do combate ao crime organizado deve estar nas lideranças, nos financiadores e nos esquemas de lavagem de dinheiro, e não apenas nos executores armados que atuam nas comunidades”. Esse discurso do delegado minimiza o combate realizado pelas polícias no confronto diário aos operários do tráfico.
Eu tenho uma leitura diferente do delegado. Na verdade, quem sustenta o tráfico nas favelas, não apenas no Rio, mas em todo o Brasil, são os “operários do tráfico”. Refiro-me a um dado simples e elementar. O crime organizado necessita de execução diária. Por isso, a exemplo de uma fábrica, o tráfico, como organização, depende de “trabalhadores na base”, todos os dias, para vigiar, transportar, esconder, vender, cobrar, intimidar, comunicar, avisar, correr risco e manter o território quando a polícia chega.
É essa base que a polícia confronta todos os dias, não porque seja “o maior cérebro”, mas porque é o corpo visível e permanente do crime. Os chefes mudam, fogem, caem, brigam entre si, são presos, morrem. Mas o crime se mantém, pois existem “operários” que ocupam os postos dos que morrem ou são presos provisoriamente, como numa linha de produção.
Pense numa fábrica: o dono pode ser influente, pode mandar, pode planejar, mas, sem trabalhadores, sem turno, sem rotina, sem substituição de pessoas, a fábrica para. No tráfico, a lógica é parecida, ou seja, a hierarquia até existe, mas a sustentação real vem de baixo, da base (os operários do crime), de quem mantém o funcionamento mínimo do sistema, mesmo sob pressão, mesmo com perdas, mesmo com risco extremo.
E aí entra o ponto que torna essa leitura incômoda, porém realista: a base não é “efeito colateral”; ela é condição de existência do crime organizado. Sem operários, não há “acima”. Sem rua, não há comando. Sem a base, não há financiadores nem operadores. É óbvio: não há patrão sem empregados; a fábrica não se mantém sem trabalhadores, pois o lucro advém do trabalho desses operários.
Se a sociedade só enxerga o “chefão” como problema, erra o alvo principal, porque o tráfico é também um modelo de recrutamento e reposição. Quando a base se renova sem parar, a estrutura aguenta golpes, se reorganiza e segue. Cortar um nome no topo pode virar manchete. Pode render votos, porém mexer na base é mexer no motor, que faz o carro se movimentar.
No fundo, o tráfico se sustenta porque se reproduz, e ele se reproduz recrutando, organizando e mantendo uma grande quantidade de operários do tráfico. É a base que dá sustentação ao esquema. É ela que garante presença e continuidade, no caso, do crime organizado.
Marcos Antonio Vasconcelos Rodrigues – professor concursado da rede pública estadual de ensino do Ceará. Autor do livro Palavras do Meu Sentimento e pesquisador com artigos acadêmicos publicados em revistas científicas
Arte: Grok